Tudo Se Me Evapora

Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha

imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora.

Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro.
Aquilo a que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Fernando Pessoa. Livro do desassossego por Bernardo Soares.
Seleção e introdução Leyla Perrone-Moisés. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989 , p. 153.
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: Pessoa Plural II
Técnica: Acrílica sobre tela
Dimensões: 135 cm x 85 cm
2011

Tenho Tanto Sentimento

Tenho tanto sentimento

Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

----------------------------------------------------------------------

Fernando Pessoa. Cancioneiro. In: Obra poética.
Org., intr. e notas de Maria Aliete Galhoz. Rio de
Janeiro: Cia Aguilar Editora, 1965, p. 1172-173.

----------------------------------------------------------------------

Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: Pessoa Plural
Técnica: Acrílica sobre MDF.
Dimensões: 135 cm x 85 cm
2011

Segue o Teu Destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Fernando Pessoa / Ricardo Reis. In: Antologia poética. Org. Álvaro Cardoso Gomes.
São Paulo: Moderna, 1994, p. 117.
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: Fernando Pessoa I
Técnica: Acrílica sobre tela.
Dimensões: 60 cm x 50 cm.
2010.

Pobre Velha Música

Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado,

Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.

Com que ânsia tão raiva
Quero aquêle outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.

-----------------------------------------------------------------------
Fernando Pessoa. Cancioneiro. In: Obra poética.
Org., intr. e notas de Maria Aliete Galhoz. Rio de
Janeiro: Cia Aguilar Editora, 1965, p. 140.
-----------------------------------------------------------------------
Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: Fernando Pessoa II
Técnica: Acrílica sobre tela
Dimensões: 100 cm x 70 cm
2011

Palhaços Estrangeiros

Os deuses vão-se como forasteiros,
Como uma feira acaba a tradição.
Somos todos palhaços estrangeiros,
A nossa vida é palco e confusão.

Ah, dormir tudo! Pôr um sono à roda
Do esforço inútil e da sorte incerta!
Que a morte virtual da vida toda
Seja, sons, a janela que, entreaberta,
Só um crepúsculo do mundo deixe
Chegar à sonolência que se sente;
E a alma se desfaça como um feixe
Atado pelos dedos dum demente...

       ----------------------------------------------------------------------------------------------------------

Fernando Pessoa. Cancioneiro. In: Obra poética. Org., intr. e notas de Maria
Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Aguilar, 1965,
p. 193.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------
Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: Palhaços estrangeiros.
Técnica: Acrílica sobre tela.
Dimensões: 60 cm x 50 cm.
2010.

Outra coisa ainda

ISTO

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

---------------------------------------------------------------------

Fernando Pessoa. Cancioneiro. In: Obra poética.
Org., intr. e notas de Maria Aliete Galhoz.
Rio de Janeiro: Cia Aguilar Editora, 1965, p. 165.

----------------------------------------------------------------------

Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: Outra coisa ainda
Técnica: Óleo sobre tela
Dimensões: 1,17 x 0,77 m
2014

Ode Marítima

[...]

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

-------------------------------------------------------------------------------------------------

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos. Ode marítima. In: Poemas
de Álvaro de Campos. Ed.crit. de Cleonice Berardinelli. Lisboa:
IN CM,, 1990, p. 81.

--------------------------------------------------------------------------------------------------

Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: Ode Marítima
Técnica: Acrílica sobre MDF
Dimensões: 70 x 90 cm
2011

O Menino da Sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
– Duas, de lado a lado –,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
“O menino da sua mãe”.

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Êle é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”n
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

-----------------------------------------------------------------

Fernando Pessoa. In: Poemas de Fernando
Pessoa. Sel., pref. e posf. de Eduardo
Lourenço. Lisboa: Visão / JL, 2006, p. 22-23.
-----------------------------------------------------------------
Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: O menino da sua mãe.
Técnica: Acrílica sobre tela.
Dimensões: 110 cm x 70 cm.
2010.

 

O Luar

O luar através dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que ele é mais
Que o luar através dos altos ramos.

Mas para mim, que não sei o que penso,
O que o luar através dos altos ramos
É, além de ser
O luar através dos altos ramos,
É não ser mais
Que o luar através dos altos ramos.

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

-Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: O luar através dos altos ramos
Técnica: Acrílica sobre tela
Dimensões: 50 x 70 cm
2011

O Essencial É Saber Ver

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Fernando Pessoa. Poemas completos de Alberto Caeiro. In: Obra poética .
Org., intr. e notas de Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Cia Aguilar Editora, 1965, p. 217.
---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: Flores ao léu
Acrílica sobre tela
60 cm x 80 cm
2011

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.

----------------------------------------------------------

Fernando Pessoa. Mensagem. In:
Poemas de Fernando Pessoa. Sel., pref.
e posf. de Eduardo Lourenço. Lisboa:
Visão / JL, 2006, p. 211.

----------------------------------------------------------

Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: Mar .português.
Técnica: Acrílica sobre tela.
Dimensões: 90 cm x 70 cm.
2010.

Lisboa Com Suas Casas

Lisboa com suas casas
De varias cores,
Lisboa com suas casas
De varias cores,
Lisboa com suas casas
De varias cores...

À força de differente, isto é monotono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.
Se, de noite, deitado mas disperto,
Na lucidez inutil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque ha somno,
E, porque ha somno, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fatasticos.
Mas não vejo mais,
Contra uma especie de lado de dentro das palpebras,
Que Lisboa com suas casas
De varias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra cousa.
À força de monotono, é differente,
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo,

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa, com suas casas
De varias cores.

-----------------------------------------------------------------

Fernando Pessoa. Poemas de Álvaro
de Campos. Ed.crit. de Cleonice Berardinelli.
Lisboa: IN CM, 1990, p. 243-244.
------------------------------------------------------------------
Artista: Lélia Parreira
Técnica: Óleo sobre tela
Dimensões: 40 x 30 cm
2011

Leve, Breve, Suave

Leve, breve, suave,
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
O dia.
Escuto, e passou...
Parece que foi só porque escutei
Que parou.

Nunca, nunca, em nada,
Raie a madrugada,
Ou splenda o dia, ou doire no declive,
Tive
Prazer a durar.
Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir
Gozar.

----------------------------------------------------------

Fernando Pessoa. Poemas de Álvaro
de Campos. Ed.crit. de Cleonice Berardinelli.
Lisboa: IN CM, 1990, p. 216-7.

----------------------------------------------------------

Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: Leve, breve, suave.
Técnica: Acrílica sobre tela.
Dimensões: 135 cm x 85 cm.
2010.

De La Musique

 

Ah, pouco a pouco, entre as árvores antigas,
A figura dela emerge e eu deixo de pensar...
Pouco a pouco, da angústia de mim vou eu mesmo emergindo...

As duas figuras encontram-se na clareira ao pé do lago...

...As duas figuras sonhadas,
Porque isto foi só um raio de luar e uma tristeza minha,
E uma suposição de outra coisa,
E o resultado de existir...

Verdadeiramente, ter-se-iam encontrado as duas figuras
Na clareira ao pé do lago?

                                    (...Mas se não existem?...)

... Na clareira ao pé do lago?...

----------------------------------------------------------

Fernando Pessoa. Poemas de Álvaro
de Campos. Ed.crit. de Cleonice Berardinelli.
Lisboa: IN CM, 1990, p. 216-7.

----------------------------------------------------------

Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: De la musique.
Técnica: Acrílica sobre tela.
Dimensões: 120 cm x 80 cm.
2010.

Esfínge

Chuva oblíqua III

A Grande Esfinge do Egito sonha por êste papel dentro...

Escrevo – e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...

Escrevo – perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Quéops...
De repente paro...
Escureceu tudo... Caio por um abismo feito de tempo...

Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste
              candeeiro
E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com
              a pena...

Ouço a Esfinge rir por dentro
O som da minha pena a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim,
E sôbre o papel onde escrevo, entre êle e a pena que escreve
E entre os nossos olhares que se cruzam sobre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que penso...

Funerais do rei Quéops em ouro velho e Mim!...

----------------------------------------------------------

Fernando Pessoa. Cancioneiro. In: Obra poética.
Org., intr. e notas de Maria Aliete Galhoz. Rio de
Janeiro: Cia Aguilar Editora, 1965, p. 114-115.

----------------------------------------------------------

Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: Chuva oblíqua III
Técnica: Acrílica sobre MDF.
Dimensões: 135 cm x 85 cm
2011

Chuva Oblíqua II

Vertigem

 

De repente paro...
Escureceu tudo... Caio por um abismo feito de tempo...

----------------------------------------------------------

Fernando Pessoa. Cancioneiro. In: Obra poética.
Org., intr. e notas de Maria Aliete Galhoz. Rio de
Janeiro: Cia Aguilar Editora, 1965, p. 114.

----------------------------------------------------------

Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: Vertigem
Técnica: Acrílica sobre MDF.
Dimensões: 135 cm x 85 cm 2011

Cansaço

Cansaço I -Acrílica sobre tela - 40 x 60 cm 2013

 

O que ha em mim é sobretudo cansaço –
Não d’isto nem d’aquillo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, elle mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inuteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o supposto em alguem,
Essas coisas todas –
Essas e o que falta nellas eternamente –;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

(...)

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Fernando Pessoa. Poemas de Álvaro de Campos.
Ed.crit. de Cleonice Berardinelli. Lisboa: IN CM, 1990, p. 254-5.
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: Cansaço I
Técnica: Acrílica sobre tela
Dimensões: 40 x 60 cm
2013

Chuva Oblíqua

Porto infinito - Acrílica sobre tela - 135 cm x 85 cm 2011Atravessa esta paisagem o meu sonho
                                 dum porto infinito
[...]

----------------------------------------------------------

Fernando Pessoa. Cancioneiro. In: Obra poética.
Org., intr. e notas de Maria Aliete Galhoz. Rio de
Janeiro: Cia Aguilar Editora, 1965, p. 113.

----------------------------------------------------------

Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: Porto infinito
Técnica: Acrílica sobre tela
Dimensões: 135 cm x 85 cm
2011

Apontamento

Acrilica sobre tela 110 cm x 70 cm 2014.

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.   
Cahiu pela escada excessivamente abaixo.   
Caiu das mãos da creada descuidada.   
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.  

Asneira? Impossível? Sei lá!   
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.   
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir. 

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.   
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.   
E fitam os cacos que a creada d'elles fêz de mim. 

Não se zanguem com ella.   
São tolerantes com ella.   
O que era eu um vaso vasio? 

Olham os cacos absurdamente conscientes,   
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes delles. 

Olham e sorriem.   
Sorriem tolerantes à creada involuntária.  

Alastra a grande escadaria atapetada de estrêllas.   
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.   
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?   
Um caco.   
E os deuses olham-me especialmente, pois não sabem por que ficou alli. 

---------------------------------------------------------------------

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos 
In: Poemas.  Lisboa: Imprensa Nacional 
Casa da Moeda, 1990, p. 213-4.
--------------------------------------------------------------------
Artista: Lélia Parreira 
Título do quadro: Cacos de mim
Técnica: Acrilica sobre tela
Dimensões: 110 cm x 70 cm
2014

Autopsicografia

Fernando Pessoa e seus heterônimos. Acrílica sobre telaO poeta é um fingidor.

Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim, nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
--------------------------------------------------------------------------------------------

Fernando Pessoa. In: Poemas de Fernando Pessoa. Sel.,
pref. e posf. de Eduardo Lourenço. Lisboa: Visão / JL, 2006, p. 33.

Artista: Lélia Parreira Duarte.
Título do quadro: Fernando Pessoa e seus heterônimos.
Técnica: Acrílica sobre tela.
Dimensões: 100 cm x 70 cm.
2010.