Fernando Pessoa desenreda o mito "Eros e Psiquê"

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Tributo a Fernando Pessoa

130 anos: 1888 - 2018
Lélia Parreira Duarte

Conta a lenda que dormia
Uma princesa encantada
A quem só despertaria
Um infante, que viria
De além do muro da estrada.

A Mona já não mais tão lisa

Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergencia instinctiva.

Cacos de mim

caco

A minha alma partiu-se como um vaso

vazio.
Cahiu pela escada excessivamente
abaixo.
Caiu das mãos da creada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do
que havia loiça no vaso.
(...)

Partida


vertigem

Cheguei hoje, de repente, a
uma sensação absurda e justa.
Reparei, num relampago intimo,
que não sou ninguem. Ninguem,
absolutamente ninguem. [...]

Medo

medoNão será melhor
Não fazer nada?
Deixar tudo ir de escantilhão
pela vida abaixo
Para um naufragio sem agua?
Não será melhor
Colher coisa nenhuma
Nas roseiras sonhadas,
E jazer quieto, a pensar no
exilio dos outros,

Desamparo

desemparoNão sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada.
Àparte isso, tenho em mim todos
os sonhos do mundo.
(...)
Que sei eu do que serei, eu que
não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser
tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a
mesma coisa que não
pode haver tantos!
(...)
Mas ao menos fica da amargura do
que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.

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Fernando Pessoa. Tabacaria. In: Poemas
de Álvaro de Campos. Ed. crít. de Cleonice
Berardinelli. Lisboa: IN-CM, 1990, p. 196-201.


Lélia Parreira
Desamparo - 2014
Acrílica sobre tela
180 x 60 cm

Não sou ninguém II

nao sou IIMeu Deus, meu Deus, a quem
assisto? Quantos sou? Quem é eu?
O que é este intervalo que ha entre
mim e mim?

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Fernando Pessoa. Livro do Desasocego. Edição
de Jerónimo Pizarro. Lisboa: IN-CM,
2010. Tomo I, p. 371-372.

 


Lélia Parreira
Não sou ninguém II - 2017
Impressão, acrílica e colagem sobre tela
85 x 90 cm

Não sou ninguém I -

nao sou ITudo se me evapora. A minha vida
inteira, as minhas recordações, a
minha imaginação e o que contém,
a minha personalidade, tudo se me
evapora. Continuamente sinto que
fui outro, que senti outro, que
pensei outro. Aquillo a que assisto
é um espectaculo com outro
scenario. E aquillo a que assisto sou
eu. (...) E tudo se me confunde num
labyrintho, onde, commigo, me
extravio de mim.
(...)

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Fernando Pessoa. Livro do Desasocego. Edição
de Jerónimo Pizarro. Lisboa: IN-CM,
2010. Tomo I, p. 371-372.

 

Lélia Parreira
Não sou ninguém I - 2017
Impressão, acrílica e colagem sobre tela
85 x 60 cm

Sou nada... Sou uma ficção...

sou uma(...)
Sou nada...
Sou uma ficção...
Que ando eu a querer de mim ou de tudo
neste mundo?
“Se eu não tivesse a caridade”...
E a soberana voz manda, do alto dos séculos,
A grande mensagem com que a alma fica livre...
“Se eu não tivesse a caridade”...
Meu Deus, e eu que não tenho a caridade!...

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Fernando Pessoa / Álvaro de Campos. “Alli não havia electricidade.”
In: Poemas de Álvaro de Campos. Ed. Crit. de Cleonice Berardinelli.
Lisboa: IN-CM, 1990, p. 312.

Lélia Parreira
Sou nada... Sou uma ficção... - 2017
Interferência, com acrílica, em foto de Cecília Alvarenga, sobre tela
90 x 100 cm

Amor

amorNão sei se é amor que tens, ou
amor que finges,
O que me dás. Dás-m’o. Tanto
me baste.
Já que o não sou por tempo,
Seja eu joven por erro.
Pouco os Deuses nos dão, e o
pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja,
a dadiva
É verdadeira. Acceito,
E a te crer me resigno.

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Fernando Pessoa. Poemas de Ricardo Reis. Ed.
crít. de Luiz Fagundes Duarte. Lisboa: IN CM,
1994, p. 167.


Lélia Parreira
Amor - 2017
Impressão e acrílica sobre tela
70 x 90 cm

Orpheu

orpheuOrpheu testemunha a chegada do
futuro, com o triunfo dos motores,
das máquinas e das indústrias, o
que resulta, porém, na divisão de
um eu insaciável, de impensável
completude, consciente de buscar o
absoluto e encontrar apenas o
próprio vazio interior.

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Lélia Parreira Duarte. In: Orpheu, a alma nua da
poesia. In: Encontros de poesia. Belo Horizonte:
CESP / FALE / UFMG, 2017.

Lélia Parreira
Orpheu - 2015
Impressão e acrílicasobre tela.
50 x 50 cm

NÃO SÓ QUERO A LIBERDADE

nao so quero(...)
Não quero! Dêem-me a liberdade!
Quero ser egual a mim mesmo.
Não me capem com ideaes!
Não me vistam as camisas de força das
Maneiras!
Não me façam elogiável ou intellegivel!
Não me matem em vida!
(...)

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Fernando Pessoa. Não! Só quero a liberdade!.
In: Poemas de Álvaro de Campos. Lisboa: IN-CM,
1990, p. 226-7.


Lélia Parreira
Não! Só quero a liberdade! - 2014
Acrílica sobre tela
180 x 60 cm

Almas pares

almasE isto não é literatura – será apenas expressão literária de uma realidade.
E quem me dirá se me enganei ou não? Perturbador enigma... Enfim...
Não quero de modo algum profanar a sua carta com mais considerações pessoais.
Apenas lhe digo que me emocionou profundamente, que julgo tê-la vibrado e
compreendido intimamente.
O drama atinge a sua culminância na aparição de duas teorias
diferentes – sobre o mesmo caso – e igualmente certas.
Seria até o assunto para um drama em romance ou teatro:
assunto que por força seduziria Ibsen.
Com(ov)idamente “obrigado” portanto pela sua carta de hoje,
meu querido Fernando. (...)
Suplico-lhe é que nunca deixe de me escrever essas grandes cartas.
Se soubesse como me faz bem, como sou feliz lendo-as e respondendo-as. (...)
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Sá-Carneiro, Mário de. Cartas a Fernando Pessoa.
Lisboa: Ed. Ática, 1959, Vol. II, p. 71.

Lélia Parreira. Almas pares. Acrílica sobre
tela. Dimensões: 0,90 x 0,70 m. 2015.

Ode marítima

ode2(...)
Ah, seja como fôr, seja para
onde fôr, partir!
Largar por aí fora, pelas ondas,
pelo perigo, pelo mar,
Ir para Longe, ir para Fóra, para
a Distância Abstrata,
Indefinidamente, pelas noites
misteriosas e fundas,
Levado, como a poeira, plos
ventos, plos vendavais!
(...)

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Fernando Pessoa. Ode marítima. In: Poemas
de Álvaro de Campos. Ed. crít. de Cleonice
Berardinelli. Lisboa: IN-CM, 1990, p. 88.

Lélia Parreira. Ode marítima.
Acrílica sobre tela. Dimensões:
Dimensões: 0,90 x 0,70 m. 2017.

Aranha sem teia

aranha sem teiaTodos esses ideaes, possiveis ou
impossiveis, acabam e me
esqueci de outros, se os havia.
Tenho a realidade deante de
mim, tentaculo absurdo d’uma
alma com familia e sorte que faz
tregeitos de aranha sem teia no
esticar-se da reposição cá á
frente.

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Fernando Pessoa. Livro do Desasocego. Edição de Jerónimo Pizarro. Lisboa: IN-CM, 2010. Tomo I, p. 229.

Lélia Parreira. Aranha sem teia.
Acrílica sobre tela. Dimensões:
0,95 x 0,70 m. 2017.

Ultimatum futurista

ultimatum futuristaE na nossa sensibilidade actual tudo o
que não fôr explosão não existe.
(...)
A guerra é o ultra-rialismo positivo.
(...)
É a guerra que accorda todo o
espirito de criação e de construção
assassinando todo o
sentimentalismo saudosista e
regressivo.
(...)
É a guerra que apaga todos os idiaes
românticos e outras formas literárias
ensinando que a unica alegria é a vida.

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José de Almada Negreiros. Lisboa: Seara Nova, 3,
1979, p. 144.

Lélia Parreira. Ultimatum futurista.
Impressão, acrílica e colagem sobre tela.
Dimensões: 0,95 x 0,74 m. 2017.

Fósforos riscados

fosforosDeus creou-me para creança, e
deixou-me sempre creança. Mas
porque deixou que a Vida me batesse e
me tirasse os brinquedos, e me
deixasse só no recreio, amarrotando
com mãos tam fracas o bibe azul sujo
de lagrimas compridas? (...) são
minhas as mãos que torcem o canto do
bibe, são minhas as boccas tortas da
lagrimas verdadeiras, é minha a
fraqueza, é minha a solidão, e os risos
da vida adulta que passa lesam-me
como luzes de fósforos riscados no
rugoso sensível do meu coração.

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Fernando Pessoa. Livro do Desasocego.
Ed. de Jerónimo Pizarro. Lisboa: IN-CM, 2010.
Tomo I, p. 205.

Lélia Parreira. Fósforos riscados.
Impressão, acrílica e objetos sobre tela.
Dimensões: 0,70 x 0,95 m. 2017.

Bicarbonato de soda

bicarbonato(...)
Renego tudo.
Renego mais que tudo.
Renego a gladio e fim todos os
Deuses e a negação d’elles.
Mas o que é que me falta, que o
sinto faltar-me no estomago e
na circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa
no cérebro?
Devo tomar qualquer coisa ou
suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir...

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Fernando Pessoa. Bicarbonato de soda. In:
Poemas de Álvaro de Campos. Ed. crít. de
Cleonice Berardinelli. Lisboa: IN-CM, 1990, p. 305-6.

 

Lélia Parreira. Bicarbonato de soda.
Acrílica sobre tela. Dimensões:
0,90 x 0,60 m. 2012.

Eu não sou eu nem sou o outro

não sou eu nem sou o outroDepuz a mascara e vi-me ao espelho...
Era a creança de ha quantos anos...
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a
mascara.
É-se sempre a creança,
O passado que fica,
A creança.
Depuz a mascara, e tornei a pol-a.
Assim é melhor.
Assim sou a mascara.
E volto á normalidade como a um
terminus de linha

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Fernando Pessoa. Depuz a mascara e vi-me
ao espelho. In: Poemas de Álvaro de Campos. 
Ed. crít. de Cleonice Berardinelli. Lisboa: IN-CM,
1990, p. 252.

 

Lélia Parreira. Eu não sou eu nem sou o outro.
 Acrílica sobre tela. Dimensões: 0,80 x 1,80 m. 
 2014.