Apontamento

Acrilica sobre tela 110 cm x 70 cm 2014.

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.   
Cahiu pela escada excessivamente abaixo.   
Caiu das mãos da creada descuidada.   
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.  

Asneira? Impossível? Sei lá!   
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.   
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir. 

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.   
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.   
E fitam os cacos que a creada d'elles fêz de mim. 

Não se zanguem com ella.   
São tolerantes com ella.   
O que era eu um vaso vasio? 

Olham os cacos absurdamente conscientes,   
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes delles. 

Olham e sorriem.   
Sorriem tolerantes à creada involuntária.  

Alastra a grande escadaria atapetada de estrêllas.   
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.   
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?   
Um caco.   
E os deuses olham-me especialmente, pois não sabem por que ficou alli. 

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Fernando Pessoa / Álvaro de Campos 
In: Poemas.  Lisboa: Imprensa Nacional 
Casa da Moeda, 1990, p. 213-4.
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Artista: Lélia Parreira 
Título do quadro: Cacos de mim
Técnica: Acrilica sobre tela
Dimensões: 110 cm x 70 cm
2014

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