O Menino da Sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
– Duas, de lado a lado –,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
“O menino da sua mãe”.

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Êle é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”n
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

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Fernando Pessoa. In: Poemas de Fernando
Pessoa. Sel., pref. e posf. de Eduardo
Lourenço. Lisboa: Visão / JL, 2006, p. 22-23.
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Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: O menino da sua mãe.
Técnica: Acrílica sobre tela.
Dimensões: 110 cm x 70 cm.
2010.

 
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