Lisboa Com Suas Casas

Lisboa com suas casas
De varias cores,
Lisboa com suas casas
De varias cores,
Lisboa com suas casas
De varias cores...

À força de differente, isto é monotono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.
Se, de noite, deitado mas disperto,
Na lucidez inutil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque ha somno,
E, porque ha somno, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fatasticos.
Mas não vejo mais,
Contra uma especie de lado de dentro das palpebras,
Que Lisboa com suas casas
De varias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra cousa.
À força de monotono, é differente,
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo,

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa, com suas casas
De varias cores.

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Fernando Pessoa. Poemas de Álvaro
de Campos. Ed.crit. de Cleonice Berardinelli.
Lisboa: IN CM, 1990, p. 243-244.
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Artista: Lélia Parreira
Técnica: Óleo sobre tela
Dimensões: 40 x 30 cm
2011

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