Cacos de mim

cacoA minha alma partiu-se como um vaso
vazio.
Cahiu pela escada excessivamente
abaixo.
Caiu das mãos da creada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do
que havia loiça no vaso.
(...)
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha
quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um
capacho por sacudir.
(...)
A minha obra? A minha alma principal?
A minha vida?
Um caco.
(...)

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos. In: Poemas de
Álvaro de Campos. Ed. crít. de Cleonice
Berardinelli. Lisboa: IN-CM, 1990,p. 213-4.

Lélia Parreira
Cacos de mim - 2014
Acrílica sobre tela
70 x 110 cm