Desamparo

desemparoNão sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada.
Àparte isso, tenho em mim todos
os sonhos do mundo.
(...)
Que sei eu do que serei, eu que
não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser
tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a
mesma coisa que não
pode haver tantos!
(...)
Mas ao menos fica da amargura do
que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.

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Fernando Pessoa. Tabacaria. In: Poemas
de Álvaro de Campos. Ed. crít. de Cleonice
Berardinelli. Lisboa: IN-CM, 1990, p. 196-201.


Lélia Parreira
Desamparo - 2014
Acrílica sobre tela
180 x 60 cm