Fósforos riscados

fosforosDeus creou-me para creança, e
deixou-me sempre creança. Mas
porque deixou que a Vida me batesse e
me tirasse os brinquedos, e me
deixasse só no recreio, amarrotando
com mãos tam fracas o bibe azul sujo
de lagrimas compridas? (...) são
minhas as mãos que torcem o canto do
bibe, são minhas as boccas tortas da
lagrimas verdadeiras, é minha a
fraqueza, é minha a solidão, e os risos
da vida adulta que passa lesam-me
como luzes de fósforos riscados no
rugoso sensível do meu coração.

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Fernando Pessoa. Livro do Desasocego.
Ed. de Jerónimo Pizarro. Lisboa: IN-CM, 2010.
Tomo I, p. 205.

Lélia Parreira. Fósforos riscados.
Impressão, acrílica e objetos sobre tela.
Dimensões: 0,70 x 0,95 m. 2017.