Bicarbonato de soda

bicarbonato(...)
Renego tudo.
Renego mais que tudo.
Renego a gladio e fim todos os
Deuses e a negação d’elles.
Mas o que é que me falta, que o
sinto faltar-me no estomago e
na circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa
no cérebro?
Devo tomar qualquer coisa ou
suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir...

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Fernando Pessoa. Bicarbonato de soda. In:
Poemas de Álvaro de Campos. Ed. crít. de
Cleonice Berardinelli. Lisboa: IN-CM, 1990, p. 305-6.

 

Lélia Parreira. Bicarbonato de soda.
Acrílica sobre tela. Dimensões:
0,90 x 0,60 m. 2012.